
Está chovendo, faz frio...
A única luz que fulgura,
Entre as trevas e a intempérie,
Forma meu reflexo
No vidro da janela.
Estou postado em pé,
Braços cruzados
Acolchoados ao casaco,
Cabelos e tez claros
Tal qual um suave fantasma.
Há beleza em meu semblante,
Mas fria e imortalizada,
Como a Vênus no mármore:
Linda e pétrea
E, ao mesmo tempo, etérea.
No entanto, os olhos
Refletidos na vidraça
Denunciam quem sou,
Mostram a dor que consome
E que, a custo, escondo...
Como o retrato que envelhece
E traz as marcas
Dos crimes cometidos,
Meu olhar revela
Todos os erros e falhas.
Cada pecado ou atrocidade,
Cometidos ou sofridos,
Enterrados no pântano
Da minha alma atormentada,
Carcomem esta existência.
Sou como a criatura errante
Que caminhou desconsolada,
Imersa nos próprios erros,
Nos gelos eternos
Tentando se encontrar
E que, em frente ao criador,
Questiona o universo
Regurgitando amarguras,
Porque no âmago
Só almeja um único desejo:
Apesar de todos os fracassos,
Pelo amor de um único ser,
Da humanidade se ausentaria.
Um único ser,
Que da podridão redimiria,
Um amante na aflição...
Muito mais que noites momentâneas
E que com a tepidez do corpo,
Aquecesse tal coração cadavérico,
Acendendo a centelha da esperança.
Talvez seja tarde demais
Para tais anseios juvenis
Neste espírito cansado e errôneo
Aprisionado aos grilhões
Da dor e amargura...
Talvez contemplar a chuva,
Num dia frio
E de tristezas infindas,
De longas noites profundas,
No distante ermo
Seja tudo o que ainda resta,
Tudo o que ainda é permitido
Para quem o monstro
Tem adormecido em si
Por trás da serena forma...
Ana C. Brida
16/05/2017, 02h
Nenhum comentário:
Postar um comentário