quarta-feira, 21 de agosto de 2019

O Jogo


Eu sei como funciona o jogo da conquista.
A palavra certa a proferir na hora certa.
A ansiedade causada pela espera.
O toque sutil de quem aparenta não querer nada
Quando, na verdade, almeja tudo.

Eu sei o segundo exato de cruzar os olhares,
A transição dos olhos para a boca,
O sorriso leve e insinuante
Que antecede o primeiro encontro dos lábios;
Bem como o momento de me afastar.

Eu sei ler no outro aquilo que deseja
E o que sou capaz de lhe oferecer.
O sussurro mais íntimo que deseja escutar,
O carinho mais afetuoso que anela.
Sei a reação que cada ação pode despertar.

Eu sei cada passo necessário
Para enredar nos diálogos mais ingênuos
Até fazer com que enlouqueça sob os lençóis.
Como extrair sensações e emoções
A fim de satisfazer meus próprios anseios.

Eu sei como acender e manter a chama
Da mesma forma que sei como apagá-la.
Sei o instante de chegar e de partir,
O que falar ou esconder, a verdade e a mentira.
Conheço as regras e sei como quebrá-las.

Eu sei cada comando ou movimento
Que de mim alguém pode esperar.
Aprendi a ultrapassar cada um dos níveis,
A construir fantasias e instigar a imaginação,
De todas as vivências, segredos revelados.

Nesse jogo, já passei por todas as etapas.
Cada fase, repetidamente, até o final.
Conheci as alegrias e as tristezas,
O choro e o riso, a dor e o prazer,
Do deslumbramento inicial à frieza terminal.

Senti na pele o arrepio da paixão,
A entrega solene do amor.
Da mesma forma vi tudo desmoronar
E depois a ausência, seguida da saudade
E, ao final, o esquecimento.

Apesar de todo esse saber,
Os resultados são sempre os mesmos,
Há bônus e perdas, vitórias e derrotas.
Eu sei como funciona o jogo da conquista,
Mas não sei se quero continuar a jogar.

Ana Brida
22/08/2019

terça-feira, 12 de março de 2019

Platônico

Do veículo a se distanciar
Noto seus olhos que me acompanham
Com ternura parecem me observar
E meus pensamentos desnorteiam.

Desde então, rápidos os dias se foram
Mas aquele momento insiste em perdurar
Corpo e alma que anseiam
Qual a sensação de lhe tocar.

Distante, a mente a me torturar
Mensagens e fotografias me questionam
Se vou mais uma vez lhe reencontrar.

Ao vivo, em sonho ou devaneios pelo ar
Desejos e afinidades de nós emanam
Quando, enfim, há-de se concretizar?

Ana Brida
29 jan. 2019

Questionamentos

Como dizer o que aflige nossa existência,
se as palavras morrem
antes de chegar aos lábios?

17 fev. 2019

Em um mundo de pessoas rasas,
como mergulhar com profundidade
e transbordar emoções?

11 mar. 2019


Robotizados

Estamos nos tornando máquinas,
Afinal, preferimos idealizar experiências virtuais
Ao toque áspero da realidade;

Preferimos olhar para uma tela sem vida
A contemplar alguém olho no olho;

Preferimos interagir com aparelhos eletrônicos
A lidar com outras pessoas;

Preferimos nos esconder sob luzes artificiais
A sair da zona de conforto e ver o mundo lá fora...

Seres mecanizados, robotizados,
Não sabemos mais sentir...
Como voltarmos a sermos humanos?

Ana Brida
12 fev. 2019

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Letargia Noturna

Na solidão noturna
Pensamentos me corroem
Antes que eu durma
E a pouca paz dissolvem.

No peito, as lembranças doem.
Em agonia taciturna,
As esperanças se destroem
Em gradação intensa e soturna.

Penso, então, em escrever,
Mas letárgica, não levanto,
Apenas remoendo o sofrer.

Enquanto seca o pranto,
Sinto a inspiração esmorecer.
O vazio quebra do momento o encanto.

A.C. Brida
07/01/2019

Será?

Será que todas as referências
sobre o amor que já presenciei
serão apenas de filmes, músicas e livros?

Será que a imensidão desse sentimento,
sempre exaltado entre os seres,
só contemplarei em relações alheias?

Será que o tempo me condenou a
sentir a eterna solidão e a
saudade do que fez sentido uma única vez?

Será que, ao olhar toda noite a janela,
só verei as luzes artificiais da cidade
sem estrelas, sem sonhos, sem nada?

Será que algum dia alguém há-de me olhar
sem julgamentos, sem segredos, sem maldade,
somente capaz de ver o que carrego no coração?

Será possível ou
será  já tarde demais?

A.C. Brida
07/01/2019

Sentidos

Cerro as pálpebras,
Por entre lágrimas
Enxergo com os olhos
Da memória escondida.

Aspiro o perfume
Que evaporou no tempo.
Na boca, o sal
Do pranto incessante.

Ouço silêncios retumbantes,
No peito, dores que sufocam;
Na pele, o ardor
Das unhas cravadas.

Sentimentos enraizados
Aos poucos condenam
A frágil existência
Que ainda me resta.

O mundo lá fora
Vê apenas uma máscara
Pretensiosa de fortaleza,
Obrigada a sempre ostentar.

Quanto tempo
Ainda resta
Para tudo isso
Chegar ao fim?

A.C. Brida
07/01/2019