As trevas causadas
pela ausência desceram sobre meus olhos
Fazendo com que,
errante, perambulasse pela existência
Tateio pelas paredes
buscando algo em que me apoiar
Deslizo as mãos
pelas superfícies tentando sentir a maciez de um corpo
Agarro-me aos
travesseiros e às cobertas querendo encontrar o calor amado
No entanto, nada se
revela diante da vasta escuridão.
Busco os sentidos
que ainda restam além do tato
Para captar cheiros,
gostos e sons que, por ventura, ainda existam
Num casaco esquecido
tento sorver o perfume que já evaporou
A boca seca não
sacia sua sede infinita
Apenas o silêncio
ecoa sepulcral pela alcova vazia
O escuro externo
reflete o vazio interno
Esfrego as pálpebras
numa atitude desesperada de recobrar o foco
Contudo, a cegueira
penetra às profundezas do meu ser
Afogado e perdido no
vácuo insensível da solidão
Não sei mais se
estou caminhando com olhos abertos ou fechados
Tamanha a imensidão
da obscuridade ao meu redor
Só sei que sigo
esbarrando dolorosamente por objetos inanimados
Cravo as unhas nas
palmas das mãos e nos braços
Na esperança inútil
que seja tudo parte de um negro pesadelo
A luz, para sempre,
apagada; estou definitivamente cego.
A.C. Brida
26/10/2018
03h37min
