sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Cegueira



As trevas causadas pela ausência desceram sobre meus olhos
Fazendo com que, errante, perambulasse pela existência
Tateio pelas paredes buscando algo em que me apoiar
Deslizo as mãos pelas superfícies tentando sentir a maciez de um corpo
Agarro-me aos travesseiros e às cobertas querendo encontrar o calor amado
No entanto, nada se revela diante da vasta escuridão.

Busco os sentidos que ainda restam além do tato
Para captar cheiros, gostos e sons que, por ventura, ainda existam
Num casaco esquecido tento sorver o perfume que já evaporou
A boca seca não sacia sua sede infinita
Apenas o silêncio ecoa sepulcral pela alcova vazia

O escuro externo reflete o vazio interno
Esfrego as pálpebras numa atitude desesperada de recobrar o foco
Contudo, a cegueira penetra às profundezas do meu ser
Afogado e perdido no vácuo insensível da solidão

Não sei mais se estou caminhando com olhos abertos ou fechados
Tamanha a imensidão da obscuridade ao meu redor
Só sei que sigo esbarrando dolorosamente por objetos inanimados

Cravo as unhas nas palmas das mãos e nos braços
Na esperança inútil que seja tudo parte de um negro pesadelo


A luz, para sempre, apagada; estou definitivamente cego.

A.C. Brida
26/10/2018
03h37min

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Aleatórios

Partes de mim estão espalhadas por aí...
Mas se quiser saber quem sou,
Eu ainda não tenho a resposta.
(s/d)


Descobri
no livro da vida
que a página que solucionava
todos os mistérios
foi arrancada!
 (12/10/2018)


O relógio quebrou
O tempo parou
A vida continuou...
(22/10/2018)


Tal qual
botão de rosa
esquecido num livro,
a esperança reside
num recôndito escuro
do meu coração!
(22/10/2018)


A densa chuva
derrama por mim
as desesperançadas lágrimas
que me desapareceram
dos olhos.
(01/11/2018)

Não deixe a maldade
alheia destruir a bondade
que há em seu coração.
(16/12/2018)

Você nunca encontrará
a felicidade se não a
buscar primeiro
em si mesmo!
(26/12/2018)

Um dia,
a alegria se foi...
Mas a tristeza há de passar...
Afinal,
Também nós não permaneceremos...
(2019)

Tristeza Profunda


Às vezes, queria poder arrancar a tristeza profunda que me consome o ser
Como se despe a roupa do corpo, após um dia extenuante
Como se tiram os sapatos depois de longa caminhada
Como se extrai a farpa que penetrou fundo na carne
Como se arremessa uma garrafa contra a parede e observa seu estilhaçar
Como a chuva a se precipitar das nuvens com intensidade
Como o carro em alta velocidade que some nas curvas da estrada
Como a saudade é dissipada diante da presença de quem se ama
Como a dor agonizante que, chegando ao extremo, arrefece os membros
Como o coração, ainda pulsante, ao ser arrancado do peito
Como o sono da morte que, enfim, concede o esquecimento
Mas, de tão entranhada que está à minha alma
Não sei mais onde eu começo e termino
Não sei mais onde essa melancolia aguda começa e termina
Pungente e silenciosa agonia a me devorar por espaços e tempos indefinidos...



A.C. Brida
26/10/2018
01h22min.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Vestígios

A garrafa
               que na estante empoeirou
O papel
             em que o nome assinou
O perfume
                  que a roupa deixou
O chocolate
                   que na boca amargou
O retrato
               que o tempo manchou
A flor
         que com os dias murchou
 Apenas vestígios
                              De uma vida
                                                   Que passou...


Ana C. Brida
11/10/2018