domingo, 4 de setembro de 2016

Tempo



Quanto tempo é preciso para apagar alguém da memória?
Quantos rostos fitarei buscando encontrar os mesmos traços?
Quantas pessoas magoarei por meu coração hoje ser terreno inóspito?
Quantas madrugadas solitárias e nostálgicas são necessárias atravessar?
Quantos sonhos e pesadelos repetitivos são necessários para uma imagem desvanecer?
Quantas canções repletas de lembranças terão de ser esquecidas?

Por dentro, dúvidas e recordações corroem a mente
Causando uma sensação de vazio atordoante
Transformando-me em um alguém desconhecido para mim mesmo
Não há ódio, não há asco, não há indiferença
Apenas o contínuo falecimento das horas e das emoções
Como se caminhasse num estado sonambúlico pela vida

Como seguir em frente tendo deixado uma parte de si para trás?
Como esconder as cicatrizes dormentes da alma e do corpo?
Como reunir os pedaços de si que se estilhaçaram ao chão frio?
Como sentir algo de tamanho impacto por outra criatura nesta etapa da vida?
Como se preenchem esses espaços, essas lacunas em meu interior?
Como não mentir ou fingir para prosseguir com a alcunha de forte?

Não se causa o mal a quem lhe quer bem
Portanto, o que resta é fugir das alheias afeições humanas
Esperar que o tempo leve o vazio assim como levou as dores
As lágrimas secaram, o nó na garganta ficou
A pele outrora quente agora é tão fria quanto a alma
Cabelos caíram, rugas chegaram, vistas enfraqueceram

Resta uma tristeza profunda, sombria e suave
Resta um entorpecimento das ideias
Resta o vácuo, uma constante insatisfação e insaciabilidade
Resta a brisa congelante das noites estreladas que antecede o inverno
Resta a lembrança insistente que chega sem dar satisfação
Resta um pequenino elo de toda uma história


E o tempo, sempre o tempo, que consome a existência, mas não leva embora o que eu gostaria que partisse...

Ana Claudia Brida
09 de maio de 2016.
03h.

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